
Outro dia eu estava não diante, mas sobre o trono. Era sábado e a TV ainda estava ligada. De repente, toca uma vinheta. Imediatamente começo a pensar que já era tarde da noite, tendo em vista que Supercine já havia começado. Segundos depois, a reflexão: esse canal é tão manipulador a ponto de eu estar no banheiro, com a porta fechada, mas mesmo assim o indecente consegue me informar o que e quando está passando.
A maioria das pessoas tem boa memória auditiva. O finado Marinho, que trouxa não era, sabia muito bem disso. E a Vênus Platinada mantém por décadas a mesma trilha sonora para seus programas. No máximo mudam a nota de um instrumento ou suavizam um arranjo – graças a Deus o Globo Esporte deu um jeito naquela música irritante –, mas a essência é a mesma. Com a correria e estresse cotidiano, cada vez mais “ouvimos” televisão.
É impressionante como os sons influenciam nosso corpo e conduta. Uma rua vazia torna-se muito mais assustadora do que o mesmo local com assaltantes em meio a uma multidão pedestres. O despertador é, para mim, a melhor experiência de como um som assimilado age no seu corpo. Há muito tempo eu utilizo o famoso “nokia tune” (que todos conhecem) como despertador e lembrete. Onde quer que eu esteja, basta escutar essa música para que meu corpo e mente comece a fazer associações. O negócio é tão sério que muitas vezes meu batimento cardíaco é alterado por conta de uma possível assimilação que meu corpo faz do som da nokia com o ato de acordar.
Possivelmente não me enquadro na generalização que as pessoas fazem ao dizerem que possuem uma memória visual desenvolvida e são capazes de lembrar de fulano, inclusive descrevendo a indumentária. No meu caso, acho que até mesmo minha memória olfativa e geográfica estão mais desenvolvidas. Isso não vem ao vem ao caso. Enquanto isso, a Globo continua a me aterrorizar com seus sons. E certo que por muito tempo continuarei a indagar se o corpo de Ulysses Guimarães foi encontrado todas as vezes que a vinheta do “Plantão” tocar.
